Missão:

A nossa missão tem como objectivo a protecção de animais abandonados, acolhendo-os com carinho e proporcionando-lhes cuidados veterinários que a sua situação de saúde exija (mas nos quais se incluem, pelo menos, desparasitação, vacinação e esterilização). Paralelamente, divulgamos esses animais para que encontrem famílias que os respeitem e os adoptem com responsabilidade.

 

Como Ajudar:

A ajuda de todos é preciosa! Pode ajudar os nossos animais através de donativos diversos, que promovam os seu bem-estar, donativos monetários para ajuda nas despesas de veterinário, ou simplesmente fazer a divulgação dos nossos animais, contribuindo assim, para uma responsável adopção.

 

Donativos Monetários:

Para o envio de donativos monetários, agradecemos que o façam para o NIB 0079 0000 4682 5711 10193

 

 


 

 


 

 


 

 


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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Crónicas da Manelita


Diário de um  cão Labrador (pesadamente) elegante

 

Querido Diário,

 

Desta vez não consegui escapar. A mãe anda ao tempo na minha cola para escrever no Diário e fui obrigado a fazer-lhe a vontade. Ainda por cima, ela é exigente. Quer que eu escreva num cursivo bonito e deu-me um caderno de duas linhas para a letra sair certa.

 

Não sei bem como vou sair desta alhada, porque escrever exige um grande esforço, está uma caloraça dos diabos e, nestes dias da canícula, estou sempre muito ocupado à procura de um sítio fresco para me deitar. Quando encontro um, deito-me, mas passados cinco minutos, devido à pesada elegância do meu porte, o sítio fica quente e tenho que demandar outro. Esta procura incessante, 24 horas por dia, torna o meu quotidiano mais activo do que o do Obélix. Só que eu não entrego ménhires.

 

Uma outra consequência desta busca constante é a que se reflecte sobre os meus tintins. Não te rias, querido Diário. Sabes lá... É que eu, ao contrário do Senhor Abade da anedota, quando vai a casa da Senhora Condessa, não consigo levantá-los quando me sento ou me deito. A mãe um dia destes, olhou para eles e disse: o que é isso Sansão, nem me digas que estás com uma orquite. Obrigou-me a levantar e apalpou-me. Que vergonha, querido Diário. Qual orquite, qual carapuça. Ficam é todos vermelhuscos devido á (já mencionada) pesada elegância do meu porte.

 

Quer o pai quer a mãe têm a mesma opinião e, ao menos por uma vez, estão de acordo em alguma coisa: dizem que sou um cão de grande inteligência e que a dita transparece nos meus olhos cor de avelã. Pena é que tal dom só seja visível umas poucas horas por dia. O esforço de ter os olhos abertos durante mais de cinco minutos em cada hora é demasiado e ninguém pode exigir tal coisa de um cão que se preza, principalmente de um Labrador com um porte tão elegantemente pesado como o meu.

 

Há quem tenha um lado oculto - diz a mãe - mas, felizmente, não é o meu caso. Sou um cão franco, totalmente previsível, ao contrário do meu mano Dominó, do qual nunca se sabe o que esperar.

 

(ontem ficou dois minutos fora da vista e eis senão quando aparece com uma grandes barbas brancas, como um Pai Natal extemporâneo. O pai foi ver e deu com uma almofadinha toda esventrada, e o mano Dominó a rebolar-se no recheio).

 

Só gosto de três pessoas no Mundo e faço questão de o demonstrar: são elas o pai, a mãe e o meu mano Rui De-Duas-Patas - não, não é nenhum índio Cherokee, é o meu mano humano, um dos verdadeiros filhos da mãe... parece que este assento no Diário não está a correr muito bem. Pois que, quando vejo o meu mano humano, fico completamente desvairado e não descanso enquanto não me deixam ir ter com ele. Se o pressinto cá em casa, atiro de encontro às portas o meu já tão badalado e elegantemente pesado porte, e não há barreira que me detenha.

 

Quanto ao pai e à mãe, não podem ficar muito tempo longe da minha vista. Um dia destes foram à janela ver a procissão da Senhora da Penha de França. Aquilo era uma barulheira desgraçada. Era a fanfarra dos bombeiros e mais os cascos dos cavalos da GNR, e o povaréu a cantar. Ao fim de cinco minutos sem os pais voltarem, fiquei num desatino e resolvi juntar-me a eles… Um cão que se preza não aguenta ausências tão prolongadas. Dei umas marradas nas portas fechadas e estava feito. Encontrei-os.

 

 Também sou muito cioso das minhas manas cadelas e ai de quem delas se aproxime. Ninguém tem nada que se meter com as minhas manas. Um cão com um porte pesado (mas ainda assim, de extrema elegância) como eu, não permite tais abusos.

 

E é assim que eu sou, um cão sincero, aberto, sem lados ocultos, embora pesadamente elegante. Os meus lados são mais para o paralelo. Na verdade, tenho quatro lados paralelos: o dorso, a barriga, o esquerdo e o direito. Todos paralelos ao chão ou á cama mais próxima, desde que não esteja muito alta.

 

San bzzzzzzzz...bzzzzz....... são

 

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Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Crónicas da Manelita


A VELHOTA QUE NÃO CONHECIA AS LETRAS

Pediram-me as mentoras da Missão Patas Felizes que, de quando em quando, escrevesse umas crónicas ou comentários.

 

O objectivo, penso eu, seria o de diversificar um pouco o blog, para que no mesmo não surgissem somente histórias de abandono, de cães e de gatos (e de cabras, e de guinea pigs, como já aconteceu) novo e velhos, doentes e desvalidos, postos de lado, deitados fora, como se fossem objectos descartáveis, lixo sem préstimo, impróprio, até, para a reciclagem.

 

Mesmo sem entender muito bem o que de mim desejavam, acedi. Mas, na realidade, tenho que confessar que não é tarefa fácil. Por um lado, porque sinto que já se escreveu tudo sobre tudo, que não há mais nada a dizer sobre coisa alguma nestes conturbados tempos, a não ser que nos repitamos até à exaustão. Parece que já vi tudo, que assisti a milhares de guerras e de sofrimentos inúteis. Por outro lado, falta-me a inspiração e se, por vezes, me ocorrem algumas ideias, logo se esfumam no frenesim das tarefas quotidianas, dos horários a cumprir, do trabalho profissional e doméstico, dos problemas de saúde familiares, dos cuidados a dispensar aos meus muitos quatro patas. Relego-as, portanto,  para os cafundós do crânio e da mente, e quando, exasperada, tento repescá-las, já lá não estão.

 

Mas, ainda assim, por vezes, muito raramente, é certo, situações há que me sensibilizam, que me fazem pensar que, não importa o que nos possa acontecer, a vida é para ser vivida com alegria e com optimismo e que é pouco avisado da nossa parte não aproveitar as benesses e bons momentos que nos são concedidos.

 

Sou uma leitora compulsiva. Desde muito cedo, o gosto pela leitura, me foi inculcado pelos meus pais que, embora oriundos do Baixo Alentejo, e fazendo parte de famílias numerosíssimas, de modestos recursos, foram à escola e frequentaram-na até à 3ª. ou 4ª. classe.  Nos tempos actuais, de 12 anos de escolaridade obrigatória, isto pode parecer risível, mas na primeira década do século XX, pessoas da província, mandarem os filhos à escola, especialmente as meninas era, com frequência, mal visto, no mínimo uma esquisitice, de quem se queria armar em superior.  As meninas não precisavam de instrução para nada, tal coisa até lhes podia meter ideias estranhas na cabeça, de independência, de revolta, de desobediência aos futuros maridos.

 

As minhas mais remotas recordações de infância prendem-se com a leitura e com os livros. E ainda me vejo, dez reis de gente, 5/6 anos de idade, pela mão do meu irmão, calcorreando terras e ladeiras, em direcção à biblioteca do Sr. Lima, na Escola Oficina  nº. 1, no Largo da Graça, onde passava as tardes de Sábado e de Domingo, perdida nos Mais Belos Contos de Fadas. E quando, por força das circunstâncias, fomos obrigados a regressar de África, além da vida tranquila e desafogada que deixei para trás, só tive pena dos meus livros. Não sei viver sem eles e aproveito todos os momentos para ler um pouco.

 

Assim o fiz, hoje, enquanto esperava pelo autocarro que me havia de trazer para o trabalho, em Lisboa.

 

Alheada do que se passava à minha volta, eis que, de repente, uma mão enrugada, tisnada, tapa o meu livro. Levantei os olhos, sobressaltada, e encarei a intrusa:  era uma velhota que, com frequência, passeia pelas ruas do Livramento, vinda de alguma aldeia próxima, sai e entra em autocarros, vai aqui e acolá,  e que sempre me cumprimenta (e a todas as pessoas que encontra) com um sorriso aberto, desdentado e ternurento.  O rosto marcado por décadas de trabalho duro, as costas curvadas por anos e anos de enxada, de sol a sol. Na cabeça, um lenço, com as pontas a atar atrás, à moda saloia de outros tempos.

 

- Bom dia, minha senhora. A ler um bocadinho enquanto espera, não é? Em casa, não há tempo para ler… Faz bem, faz bem.

E acrescentou com pesar:

- Eu não conheço uma única letra.

- Mas, então, se tem pena, ainda está a tempo de aprender.

- Agora, minha senhora? Com quase 90 anos? Não, já não tenho cabeça para isso. Sabe, no meu tempo, não era obrigatório, como agora. E nós éramos 6 irmãos, nenhum de nós foi à escola. Desculpe, minha senhora, não queria incomodá-la.

 

Limpou uma lágrima furtiva e seguiu caminho.

 

Segui-a também com os olhos. Retomei a minha leitura.

 

Sou uma mulher afortunada.

 

MHR

18.11.09

 

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Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Crónicas da Manelita

AJUDA-ME A VIRAR A MARGARIDA!


Sábado. Na tarde mormacenta, sem vento, cães e gatos, estiraçados no pátio, dormem.

 

“Vamos lá escovar a malta”, pensei, E se bem pensei, melhor o fiz.

 

Estico um lençol sobre a mesa de “toilletage”, disponho escovas, pentes vários, soro fisiológico, toalhetes húmidos, algodão, cotonettes, bétadine, pomadas e pingos, porque isto de escovar cabeludos, cá  comigo é tarefa para três horas e com todos os éfes e érres.

 

Pressagiando momentos prazerosos, antecipando delícias de dorsos coçados, os que gostam de ser escovados aproximam-se e fazem bicha ao pé da mesa. Bicha mesmo, não fila, que isso é termo brasileiro, significa coisa arrumadinha, disciplinada. Esta, é uma bicha, à portuguesa, cada um para o seu lado, e cada qual a querer passar à frente do parceiro.

 

Digo-lhes: tirem senhas, pás!

 

E o escovanço começou. Veio um, depois outro,  outra a seguir e por aí fora. Foi preciso caçar algumas, escondidas,  e perseguir outras que fugiam para debaixo das camas.  Gatos, uns vá lá, vá lá, outros assim-assim, de unhas em riste;  o Mauzão,  nem pensar. Fica lá com essas rastas, há-de me ralar muito, parvalhão! E, como sempre me acontece quando me dedico a qualquer actividade fisica, mas que me deixa livre o pensamento, a minha mente vagueia, devaneia, matuto nisto e naquilo, no que ouvi e no que vi, no que gostaria de não ter visto nem ouvido, no que seria bom fazer. E enquanto passo pêlos sobre pêlos, desembaraço nós, e corro a furminator, o pente duplo, o cardador sobre mantos cerdosos, lisos, encaracolados, curtos, longos e intermédios, escarafuncho ouvidos que parecem ecopontos, tanto é o esterco acumulado, limpo remelas e espreito bocas, cujo bafo ressuscitaria defuntos milenários, ensimesmada, vou meditando. Vem-me à memória uma notícia que tinha visto ou “ouvisto” sobre a falência do tal banqueiro americano, que endrominou meio mundo, e de como alguns bancos portugueses foram afectados por este acontecimento. O Banco A foi lesado em  100 milhões de euros, o Banco B em 200 milhões, o C em  150, enfim, um ror de milhões pr’ó maneta.

 

Xiii!! O que se poderia fazer com todos aqueles milhões perdidos! Quantas vidas poupadas quantos estômagos saciados, quantas misérias invertidas! Quantas florestas, quantos ecossistemas salvos! E o que eu faria com todo esses milhões – as coisas do costume, claro: transformar os filhos e o neto em nababos, de forma equitativa, tirar amigos e até alguns inimigos, de dificuldades, tornar feliz a Missão Patas Felizes, oferecendo-lhe o Hotel de 7*/Canil pr’a Desvalidos, todo já prontinho, cheio de luxos asiáticos, para o bem-estar dos patudos, sem distinção de classes, como se tivesse saído da Lâmpada de Aladino… ai, de mim,   eu nem sei, eu nem sei, tanta coisa, tanta coisa…

 

E perdida em sonhos irrealizáveis e extasiada pela posse utópica dos milhões transviados, eis que chega a vez de a velha, cardíaca e luxuriante Margarida-Lassie, a Rough Collie, ser escovada; a Margarida, cuja posição preferida é a horizontal, que só se mexe para o estritamente indispensável: dirigir-se ao prato da comida e ao pátio, ou para apanhar sol, ou para aquilo que ninguém pode fazer por ela. Também gosta, ao mais puro estilo reptilário, e tirando partido da longa cabeça, mas sempre deitada, de lançar o bote sobre os companheiros que lhe passam ao alcance, mordendo-os. Impossível, mesmo, é manter a Margarida de pé por mais de 3 minutos.

 

- Ajuda-me a levar a Margarida.

 

E lá vamos, o meu marido e eu, marrequinhos e de língua de fora, devido ao esforço, com a Margarida ao colo, pegando-lhe, um pela posta da frente, o outro pela posta de trás, que a Margarida pesa quase 40 Kgs. Pomos a Margarida em cima da mesa. A Margarida ali fica, espapaçada, de lado. Passo escovas e pentes, durante meia hora, sobre o lado direito da Margarida. Extraio pêlo suficiente para encher uma almofada. É preciso virar a Margarida para escovar o lado esquerdo.

 

- Ajuda-me a virar a Margarida.

 

A primeira coisa que vou comprar quando os milhões escafedidos me vierem parar às mãos é uma roldana. Para levantar e virar a Margarida.

 

Ah, e um daqueles aparelhómetros, como os da loja do cidadão, que regurgitam senhas. Que digam: pêlos cerdosos – guichet  1,  compridos – balcão 2, e nem uma coisa nem outra – mesa 3.

 

8 de Outubro de 2009

 

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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Crónicas da Manelita

A HUMILDADE

 


De há uns anos para cá, é frequente ouvir-se as palavras “humilde” e “humildade” ditas por luminárias políticas, desportivas e outras, num contexto e com uma conotação completamente diversos dos que lhes eram atribuídos na minha infância.

Os meus pais eram pessoas de fracos recursos. O meu pai fazia parte do operariado, uma categoria profissional que deixou de existir (a seguir ao 25 de Abril passaram a ser “trabalhadores” e “técnicos”). Era polidor de móveis – se fosse agora chamar-lhe-iam, creio, “técnico em polimento de móveis”- e trabalhava para vários patrões, fazendo “ganchos” fora de horas e aos fins-de-semana, para prover ao sustento da família. Quando eu era muito criança, com 5/6 anos, deslocava-se, por vezes, a casas ditas “ricas” para polir e recuperar os seus móveis. Não raro, acompanhava-o, e era habitual ouvir as senhoras, donas dessas casas, comentarem a respeito da nossa família, e à minha frente, que nós éramos pessoas “humildes”, mas muito boa gente. Do alto da sua suposta superioridade, lá pensavam que eu, por ser uma fedelha mal saída dos cueiros, não entendia patavina do que diziam. Puro engano. Não só percebia, como me caía mal, cheirava-me a desprezo.  Ser humilde era, no meu modo de ver, ser miserável, passar fome, andar suja, piolhosa e de nariz ranhoso, atulhado de burriés, viver numa barraca, depender de esmolas e ser alvo de humilhações sem fim. Nós não éramos nada disso (embora, dos piolhos, nem sempre nos conseguíssemos safar). Tínhamos um tecto, eu os meus irmãos andávamos sempre num brinco e bem alimentados, todos estudávamos, os nossos pais não eram analfabetos, a minha mãe lia muito e escrevia lindamente e o meu pai tinha, até, uma das letras mais bonitas que alguma vez me foi dado ver e trabalhava árdua e honestamente. Não via, portanto, justificação para que fossemos considerados “humildes” ou que tivéssemos que mostrar “humildade” perante fosse quem fosse.

E foi assim que, ao longo da minha vida, sempre me recusei a ser “humilde”, porque tal sentimento, do meu ponto de vista, significava submissão, falta de brio, aceitação da adversidade, ausência de revolta, humilhação, ou seja “quanto mais te baixas, mais se te vê o rabo” – palavras da minha mãe.

Mas também é facto que sei que não sei tudo, que estou sempre a aprender e, portanto, quando, em tempos mais recentes, comecei a ouvir os políticos e outras sumidades deste burgo a regurgitar, a torto e a direito, nas mais diversas circunstâncias, as palavras “humilde” e “humildade” para se desculparem dos seus insucessos e dos erros cometidos, num assomo de humildade, resolvi ir aos dicionários que tenho cá em casa. Comecei por consultar o

- DICCIONARIO DA LINGUA PORTUGUEZA ETYMOLOGICO, PROSODICO E ORTOGRAPHICO –

Nota: a falta de acentos não é lapso. É mesmo assim.

8ª. Edição correcta e augmentada – Primeira década do Séc. XX – Autor desconhecido  (Diccionarios do Povo para Portuguezes e Brazileiros)

Humildade – sentimento da própria inferioridade, submissão, condição baixa, modéstia.

Humilde – que tem ou mostra humildade: de baixa condição; modesto.

Humilhar – fazer humilde, sujeitar, rebaixar; curvar-se; rojar-se para conseguir algum favor.

Seguidamente, passei ao:

- MODERNO DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA PARA ESTUDANTES E PARA O POVO, ORTOGRÁFICO, PROSÓDICO E MORFOLÓGICO – Francisco Torrinha, Edição de 1935:

Humildade – virtude que nos dá o sentimento da nossa fraqueza, modéstia, inferioridade.

Humilde – modesto, obscuro, pobre, submisso, rasteiro

Humilhar – tornar humilde;  vexar; abaixar a cabeça para marrar.

Insatisfeita, atirei-me ao:

- KOOGAN LAROUSSE – 1978

Humildade – ausência completa de orgulho; rebaixamento voluntário por um sentimento de fraqueza ou respeito; modéstia; pobreza.

Humilde – que tem ou aparenta humildade, que se diminui voluntariamente; que denota respeito, deferência; medíocre, baixo, obscuro.

Humilhar – tornar humilde; tratar desdenhosamente, com soberba. Rebaixar, vexar, submeter e oprimir. Mostrar-se humilde = rebaixar-se.

E, finalmente, o

- DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA – Academia de Ciências de Lisboa Edição de 2001

Humildade – Capacidade de reconhecer erros ou defeitos próprios; qualidade do que é humilde. Demonstração de respeito, de submissão, de aceitação de alguma coisa. Acatamento, deferência inverso de altivez, arrogância, orgulho, soberba e sobranceria. Estado de inferioridade, especialmente em termos económicos ou sociais. Modéstia, pobreza.

Humilde – Que tem ou demonstra humildade, capacidade para reconhecer as próprias fraquezas. Que denota respeito, submissão, reverência, simplicidade, modéstia, inferioridade sócioeconómica, pobre, simples,  modesto.

Humilhar – Fazer sentir vergonha de si próprio; fazer perder o orgulho ou o amor-próprio; fazer parecer inferior, desprezível ou sem valor; menosprezar, rebaixar, vexar. Colocar-se numa posição de inferioridade ou humildade excessivas. Abaixar a cabeça, o touro, dando azo  a que o forcado execute a pega de caras, etc., etc.

Posto isto, e por mais voltas que dê ao assunto, continuo a pensar que um humilde, nada mais é do que um desgraçadinho que deixa que façam dele gato-sapato e que até gosta.

 Humildade, humilde, humilhar, a raiz é a mesma em todos os vocábulos. Todos eles têm sabor a subserviência e a bajulação.

Nunca quis ser, não quero ser, nem nunca quererei ser uma desgraçadinha. E se eu, que não sou importante (passe a humildade), não quero ser desgraçadinha, o que dizer do primeiro-ministro, dos políticos fulano e sicrano e (por exemplo) do Cristiano Ronaldo? Quererão?

 A que propósito, um qualquer político que não fez o que devia ou que cometeu erro, uma ilegalidade, vem dizer que “estas coisas acontecem e que o que é preciso é humildade”? Ou que um jogador de futebol e um treinador que ganham milhões e metem a pata na poça, venham, depois, perorar, compungidos e lacrimosos, que é preciso humildade para aceitar o mau resultado do jogo?

Os primeiros, os políticos e governantes do meu País não podem, nem devem e, decerto, não querem, ser humildes. Devem ser honestos, incorruptíveis e, caso errem - o que pode acontecer - devem ter a hombridade, o bom senso de o reconhecer de, se possível, remediarem o mal, ou de aprenderem com esses erros para não reincidirem. E os segundos devem esforçar-se, ao máximo, para vencer os jogos e fazer jus aos seus escandalosos ordenados.

Como tal, e dado que ninguém acredita que se sintam, sequer, arrependidos, a humildade que aparentam é, somente e apenas, Hipocrisia.

Está bem, pronto, já vou, que chatos! Uma pessoa já nem pode estar sossegada a debitar umas balelas para o Patas.

Tenho que terminar. É que, à semelhança dos humildes políticos, desportistas e quejandos, que, com humildade, buscam o tacho que, gloriosamente, os fará ascender aos píncaros da fama, tenho aqui, à minha volta, 23 pares de olhos, de todas as formas, cores e feitios, descaídos, também em humílima  súplica, pelo tacho, pelo verdadeiro tacho, o de alumínio, com asas e tudo, aquele que, gloriosamente,  lhes há-de encher as barrigas e, oh, ignomínia!! me há-de esvaziar os bolsos.

MHR

15 de Setembro de 2009

 

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publicado por Missão Patas Felizes às 01:05

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Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Crónicas da Manelita

As Crónicas da Manelita são uma forma de analisar e comentar alguns aspectos do nosso quotidiano, através de uma olhar atento de quem, com um espírito assaz críitico, não se pauta pela indiferença.

 

Semanalmente, a Manelita com o seu dom da escrita e com a sua visão muito pessoal, das coisas, dar-nos-á o prazer de momentos de leitura divertidos, sérios, preocupantes, descontraídos e certamente, sarcásticos.

A BATALHA


Subo, com esforço, que os anos já pesam, para o autocarro que, cinco dias por semana, me transporta da tranquila aldeia onde, agora, moro para o meu trabalho em Lisboa. Sento-me e abro o livro que releio – Guerra e Paz, de Tolstoi – na página marcada com uma dobra, exactamente na altura da Batalha de Borodino,  da marcha das tropas napoleónicas sobre Moscovo e da debandada dos russos, nobres e camponeses,  senhores e servos (as “almas”, como lhes chamavam) abandonando a cidade, deixando a terra queimada.   A descrição da tragédia -  dos invasores e dos invadidos, das dezenas de milhar de mortos de ambos os lados,  o clamor da armas, o estrondear dos canhões, o povo e a soldadesca russa em fuga, os feridos e estropiados tentando, também, escapar -  à mistura com o ronronar do motor do autocarro e da sua cadência embaladora, causam-me sonolência. O livro escorrega-me do colo e adormeço.

 

E sonho. Sonho que vivo num país idílico, onde o céu é sempre azul, apenas salpicado de nuvenzinhas, mais ou menos branquinhas, mais ou menos cinzentas, para não ser tudo bonitinho em demasia, e em que as  pastagens, que se estendem por lonjuras, até aos sopés de montanhas, coroadas de neve,  são sempre verdejantes;  onde os ventos que se semeiam, não colhem tempestades, antes a bonança, onde as pessoas, de todas as raças e credos, vivem em harmonia e, em igual harmonia, convivem com todos os animais, vertebrados e invertebrados, desde o mais insignificante molusco ao corpulento elefante, fazendo lembrar aquela imagem do paraíso terrestre, retratada num folheto, divulgado e distribuído por uma conhecida seita religiosa, e para a qual olho, sempre incrédula mas nem por isso menos fascinada;  sonho que os nossos governantes são pessoas de bem, honestas, incorruptíveis, que põem, acima de tudo, o bem-estar do seu povo, a verdade e a justiça; sonho que todos eles são defensores acérrimos dos animais e os respeitam; sonho que todos os líderes de partidos têm, como uma das prioridades do seu programa eleitoral, regulamentar os direitos dos animais, legislar sobre eles, para os proteger, tornar a sua vida cada vez melhor e que, em consequência dessa vontade, no meu país, neste país fabuloso, não há touros e cavalos torturados em touradas, caçadores que matam tudo o que mexe, espectáculos de circo com animais que vivem em condições degradantes; sonho que estou num país onde não se inauguram biotérios – fábricas de sofrimento em prol da “ciência”; sonho que não existem cães e gatos abandonados, seviciados, injuriados, atirados de carros em andamento; sonho que não existem canis camarários, linhas de montagem da Morte, campos de concentração e extermínio.

 

Um solavanco. O autocarro pára. O motorista diz, com voz grossa: chegámos!  e desperto do meu sonho mítico.  Levanto-me meio anquilosada, que a viagem é comprida. Apanho A Guerra e Paz,  saio,  trôpega e ensonada. Chegámos, é verdade. Chegámos ao  Campo Grande. E vejo,  com pasmo, todas aquelas almas, às dezenas, às centenas, aos milhares, e das  quais sou uma parte infinitesimal, andando apressadas, correndo, para o metro, para os autocarros, para os táxis, para não sei onde, na ânsia não sei de quê, em busca de coisa nenhuma, numa batalha constante, um Borodino sem fim.

 

7 de Setembro de 2009

 

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publicado por Missão Patas Felizes às 23:43

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